01 junho 2013

==> Um Retrato


Olhou a parede vermelha do apartamento recém-pintado e sentiu falta de um quadro, naquele vazio. 

Não poderia ser uma obra qualquer. Deveria expor sentimento e novas sensações.
Pensou num retrato específico.
Teria de ser aquele retrato de tempos atrás.
Perguntou-se onde achá-lo, pois o havia perdido há tantos anos.
Vasculhou todas as prateleiras, gavetas e baús, até que o encontrou. Estava empoeirado.

Restos de sentimentos do passado, amores acabados, dores maltratadas, misturadas à poeira, que se misturava às lágrimas, que escorriam e secavam no meio do caminho. Outras poucas chegavam ao chão e espatifavam alguma dor, num emaranhando de imagens e sons, perfumes e saudades que tomavam conta daquele fraco corpo pungido.

Em seus olhos, uma crosta de lágrimas e poeira embaçava a vista. Já não se via mais imagem alguma.
Com um pedaço de pano rasgado e úmido, limpou os olhos cansados e o retrato velho. Tirou a poeira de cada canto da moldura e o pendurou na parede vermelha.
Ficou ali parado, expondo seus pensamentos para si e fitando o retrato que expunha o silêncio e a agonia de outrora.


Aos poucos, ambos empoeiravam-se novamente.












(Texto publicado no antigo "atormento.zip.net")


==> Compartilhe abaixo e serás (f)eliz!

2 comentários:

  1. Sei bem desses retratos... Aguenta coração! rs. Ótimo texto! Abço

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. rsrs Obrigado, meu querido.
      Os retratos dizem muito rs
      ;)
      Abçs

      Excluir

==> (A)tormente abaixo!