02 novembro 2014

==> Oração Ao Tempo XXI

Tempo que se confunde entre os ventos, embalam cada dia vivido (cada dia lindo), agradeço-te pelo samba que pisou comigo: batuque no pelo, em "pas de deux".
Agradeço-te, também, pelos dias não lindos, por cada tapa em sonho que me deu, mordida de cachorro, picada de mosquito, pelo coração rasgado, costurado com fio dental, cicatrizado somente com o passar do seu carinho.

Gratidão à parceria de tanta vida feita e tanta que se fará em prosa, verso e poesia. O agradeço por cada grito de socorro ouvido, desesperado em sequestro da alma e resgatado pelo seu sorriso.

Salve, salve! E parabéns, em tempo. O mérito é seu, meu grande amigo.

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18 agosto 2014

==> É cada ideia...

Andei em passos largos e leves, quase que deslizando por minhas próprias idealizações. Tão particulares e frágeis ideias, que eu nunca sei com certeza por onde caminhar, tomado de um cuidado paternal que me faz desviar de todas e não pisar em alguma delas. Passadas ou presentes, são minhas ideias.

Logo, esbarrei em uma dessas primeiras ideias da vida - de quando eu ainda era muito pequeno - a vez em que eu tive a ideia curiosa de enfiar o dedo na tomada.
Comparado às altas tensões que a vida nos prepara e aos choques tomados em outros buracos onde os dedos entraram, a experiência foi pífia.

Um pouco mais à frente, reunidas em gritos de “Eu não te avisei? Agora aguenta!” estavam as “ideias de jerico”: as arrependidas.
Essas, eu somente observei com certa distância. Chamo isso de “cuidados para não-lamentos”.

Seguindo um pouco nesse meu “Vale das Ideias”, avistei as “ideias que trazem outra”, que são daquele grupo de ideias intelectualizadas, porém, um tanto desorganizadas dentre as minhas ideias. A questão é que sempre que eu tenho uma ideia e, dessa ideia surge outra, eu já me esqueci da anterior e tenho que vasculhar diversas ideias recentes, para achar aquela penúltima ideia surgida. Porque mesmo sabendo que é a penúltima ideia que eu tive, eu nunca me lembro dela. Da antepenúltima e das precedentes, eu me lembro. Então a técnica é ir até a antepenúltima ideia e desmembrá-la até chegar ao ponto seguinte, ao assunto posterior, que é a penúltima ideia tida: a não lembrada.
Um pouco confuso, eu sei, mas é assim mesmo nas minhas ideias...

Confesso que eu tenho preferência por alguns (poucos) grupos bem interessantes das minhas ideias, como as estimadas e respeitadas (por mim) “ideias malucas” - popularmente conhecidas (também por mim) como “ideias geniais”.
São daquelas que quando ditas em voz alta, as pessoas te olham de lado, em um controlado pavor corrente em suas veias, pois te acharam um tanto estranho ao proferi-las, e tendem a querer deixar o local com certa pressa, procurando a padaria mais próxima para tomar um chá de camomila, em dois goles, e comer um sonho - também em dois goles - de nervoso.
No fundo, e é o que incomoda as pessoas, essas são ideias mirabolantes para os tempos atuais, mas para você são das mais sóbrias. Ideias em que você deposita total confiança, como a um amigo, após a quarta dose de uísque, num bar do Baixo Augusta, na segunda-feira. Ideias fantásticas.

Outro grupo de ideias que visitei e que é, também, daqueles em que eu gosto de ficar horas passeando, é o das “ideias trocadas”. E os amigos fazem grande parte disso. Eles têm cinquenta por cento da responsabilidade.
É com eles que você troca mais ideias e, quando as visita, já não sabe se aquela foi sua ou se foi dele. São ideias coletivas, socializadas entre goles e risadas, abraços e conceitos. Ideias amigas.

Eu tive uma boa ideia, há muitos anos, e cruzei com ela, também, no "Vale das Ideias"
. Quando descobri que as tomadas davam choque, como relatei no início, eu parei de enfiar os dedos nas tomadas (só nas tomadas). Uma boa ideia. 

O grupo em que eu não quis nem passar perto, com todo respeito a elas, foi o das “ideias ruins”. Essas eu deixo quietas para que reflitam em seus cantos – são minhas ideias vazias.

Por fim, após vasculhar cada pedaço desse meu vale de ideias, que, confesso ser pequeno, talvez do tamanho do quintal de uma suposta casa onde eu não moro – casa idealizada – eu não consegui encontrar o que eu mais procurava: as “grandes ideias”.
Não faço a menor ideia de onde estão...

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21 julho 2014

==> Sob mar

Gosto de estar no mar. Digo, estar à mar.
Tanto faz se é verde, azul, mar de rosas, vermelho, negro ou morto. De qualquer forma (em sua forma) é mar.
Mar de sereia e sal, na solidão é boa companhia, mar que é fabuloso, aberto, estreito, das Antilhas. O aceito como for, basta ser lindo como na Bahia.
É o mar de Iemanjá que recebe presente em oferta gentil. É para navegar em alto-mar e, às vezes, se entregar sem volta. É mar para muitos navios.

Mar que abriu-se em fé e atende aos tantos cantos. À noite sobe em maré de estrelas, em lua cheia que me faz a cabeça. Sobem juntos os meus sonhos também. 
Mar que me dá banho, em qualquer lugar é poderoso. É forte no Mediterrâneo e no quadro de Turner, filho do Oceano.

Inspira histórias de Jorges e sons de Dorivais, esse amigo famoso. Inspira beijos de amor, é palco do surfista, casa de peixe, motivo de artista e companheiro do pescador.
Assim é o mar, estou à mar.

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18 junho 2014

==> Palavras Desgraçadas

Sinto raiva, muita raiva das palavras.
Como se não lhes bastassem as noites me ferindo os olhos fechados, as dores de papéis rasgados e outros molhados, mesmo as lembranças com risos dos causos alheios ou os rascunhos de escritos, para me fazer inteiro e imune a qualquer sonho quebrado, elas fizeram um descaso.

Para essas senhoras da razão, ditadoras, donas dos meus sentimentos, controladoras dos sentidos, essas que estampam até os meus documentos, eu sou apenas um brinquedo a pilha, que para no canto, sem energia e ali fica.

Me fazem tão pequeno, destruído. Me tratam como se eu fosse um bandido, me maltratam sem aviso, nenhuma satisfação. Me sinto traído, caído em maldição como anjo quebrado em Festa de Reis. Para essas Marias, eu não sofro, não sou puro, sou imaturo e me deixam de lado outra vez. Vez essa, que não admito e faço agora um manifesto, quebro tudo e grito que não sou um lixo nojento jogado no poste, não sou resto que cachorro come e depois mija em cima, passa rato e todo mundo cospe. Isso eu não permito.

O que pensam, suas prepotentes, cretinas e irresponsáveis, suas bruxas indecentes, suas putas de atitudes reprováveis? Esculacham a da rua, essa gente que trabalha honesta, sem roubar, só vendendo o que nela nasceu ardente e se esquecem de que quem não vale migalhas, são vocês cruéis e injustas palavras.

Desde outros tempos, já me usam como capacho e eu mantinha o silêncio. Agora, cansei de ser otário, ao contrário. Falo tudo e não tenho medo de palavras. Falo na cara e aponto o dedo para essas malcriadas, insensatas, que ora me beijam, ora me deixam.

Como se não lhes bastassem os dias sufocando meus pensamentos abertos a lápis, caneta ou teclas empoeiradas, hoje, elas aprontaram o pior: não me vieram.

E combinaram o encontro. Disseram que trariam vinho, amendoim e mais sonhos, mas só fiquei com água do filtro de barro e pipoca. Sonhos também, esses eu sempre tive, mesmo sem rimas e antes de eu conhecer as palavras.

Voltando ao “não encontro” com essas sujas, vagabundas, ladras de vida, essas que secaram meus rios - palavras bandidas - por elas me desfaço e dito agora em desabafo, não por orgulho. Me prometeram e faltaram. Sou sujeito abandonado, em jardim sem predicado, prejudicado, oculto, apagado.

Me falam a verdade e me faltam com a verdade, suas vacas de tetas venenosas que me fazem chupar com vontade e golfar para fora da minha própria realidade, de poesia vazia, nem mesmo um quarto de verso nessa noite tão fria, em que eu carecia do jogo. Me ignoram no inverno, o tempo menos jocoso, pois bem, eu faço um protesto.

Não vieram e não mandaram nenhuma sílaba em representação. Ao menos, um verbo, acento, uma vírgula, mas só veio uma interrogação perdida. Nem mesmo a trema, tão inútil, nada usual. Caiu fora da linguiça, aposentou e encontrou a saída. Nunca mais voltou na nossa língua.

Palavras malditas, que sambaram em mim, me violentando em carnaval, agora eu fiquei puto e, sem meias palavras, decido: é ponto final!
Por hoje apenas, eu digo.

07 junho 2014

==> Sobre Noite e Dia

A noite,
se você não sabe
é o dia
vestido de sombras
Quando se cansa
tira sua camisola
de estrelas
Para dourar-se
em beleza
e veste uma bata
cerúleo,
para livrar-se
do escuro









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